31






Hoje fiz trinta e um anos.
Nunca vivi tanto. Nunca foi tão difícil viver.
Na passagem de 31 de dezembro para 01 de janeiro, logo quando fogos de artifício começaram a estourar no céu e meus familiares começaram a abraçar uns aos outros, a primeira constatação que veio na minha cabeça foi um verbo simples, conjulgado no pretérito: “sobrevivi”.
Agora, dois meses depois e na passagem de idades, posso repetir a mesma coisa, com o mesmo assombro e surpresa:
Sobrevivi.
Não se trata de uma sobrevivência que comemoro como se fosse um triunfo, porque se sobrevivi foi arduamente, precariamente.
Entre os outros motivos todos, foi uma das idades mais importantes da minha vida porque foi aquela em que estive mais vezes próximo de um colapso emocional.
A estratégia que eu tinha para lidar com as crises anteriormente, que funcionou durante toda minha vida, era mais ou menos a seguinte: cortar mais fundo na própria carne; segurar a onda e arranjar energia e resiliência de qualquer depósito mágico das minhas profundezas, independentemente da violência e apagamento envolvidos no processo.
Era uma estratégia em que eu constantemente me sacrificava para resolver algo porque, entre os meus poucos recursos, aquele que parecia mais infinito para se explorar de forma insustentável era justamente meu bem-estar, eu mesmo.
Dessa vez, eu não tinha mais de onde tirar. Não tinha mais carne a cortar, não tinha mais depósito mágico de onde sacar, não tinha mais o que sacrificar de mim.
Pela primeira vez, talvez na minha vida inteira, eu me deparei com a realidade da minha finitude enquanto recurso.
Pela primeira vez, fui confrontado com os meus limites da forma mais crua.
O ano inteiro foi uma sucessão de crises horríveis, grandiosas, que precisei enfrentar de novas maneiras diante dos meus limites. Limites agora expostos em carne-viva. Fui obrigado pelas circunstâncias a fazer comigo algo que nunca tinha feito antes, na vida toda: priorizar minha saúde, meu bem-estar, minha qualidade de vida, minha situação mental e emocional. E só fiz isso porque sabia que ou fazia, ou era o colapso. Isso já estava bem visível para mim poucos dias depois dos trinta anos e foi se tornando mais evidente conforme os meses foram passando e as crises foram se acumulando.
Reli o texto que fiz no meu último aniversário antes de escrever esse. Sorri pensando na ironia de algo que eu disse naquela ocasião. Faço esses textos de aniversário há mais de uma década, é uma tradição, e essas ironias e coincidências sempre estiveram presentes. Mas essa foi talvez a maior de todas.
Há exatamente um ano, escrevi o seguinte:
Ter alcançado os 30 em mar calmo me fez feliz, mas ansioso.
Persiste a mentalidade do modo de sobrevivente, forjada no ferro e fogo das minhas tragédias passadas. Quando o mar está calmo, fico com medo de desaprender a manha para lidar com tempestades. Quando novamente as águas embravecerem, vou ter condições ainda para lidar com o revés das marés? Às vezes, sinto que já não tenho a mesma energia que tive mais jovem para conseguir enfrentar qualquer monstro marinho. Dependendo do que vier, talvez eu me afogue.
E hoje, um ano mais tarde, sorrio da ingenuidade. A tempestade veio. Foi uma das piores que eu já vivi. E eu não me afoguei.
Fiquei anos sem me exercitar direito. Poucos dias depois do aniversário dos trinta anos, voltei a ter uma rotina de exercícios físicos bastante disciplinada. De partida, sabia que estava fazendo isso como uma espécie de terapia. Estruturar uma rotina e aproveitar dos hormônios de bem-estar vindos dos exercícios me ajudaria a passar pelas crises que já se desenhavam. Era uma solução barata, a mais barata possível, e uma das minhas vontades era justamente a de angariar o máximo de benefícios com o mínimo possível de recursos.
Meus caminhos possíveis eram poucos e meu horizonte de possibilidades era limitadíssimo. Acho que fiz milagre diante do pouco que tinha. Espremi o máximo a partir das contingências.
Apesar dos anos de sedentarismo (praticamente uma década parado, engordando pouco a pouco), fiquei surpreso ao reparar que voltar à academia e voltar a me exercitar foi mais prazeiroso e fácil do que eu imaginava que seria. Pareceu que a relação que eu tinha com meu corpo e minha saúde só se manteve adormecida durante esse tempo todo e despertou tão logo eu dei as condições para que despertasse.
Acho que o mesmo pode ser dito sobre as condições de sobrevivente, de navegar tempestades. Foi algo que despertou em mim, tão logo foi necessário, como se nunca tivesse ido embora. Os anos de mar calmo não me atrofiaram.
Se logo no começo do ano eu não tivesse dado esses pontapés iniciais rumo a uma nova rotina e um mínimo de respeito comigo, acho que não teria suportado o que veio em seguida.
Penso no Rodrigo que fui quando, lá nos finais de fevereiro de 2025, apostei e me comprometi a me exercitar. Fiz isso pensando em economizar dinheiro, voltando a caber no meu guarda-roupas para não ter que comprar nada novo para me vestir quando voltasse a dar aulas alguns meses mais tarde.
Emagrecer por querer economizar com roupas, por ficar desconfortável de repetir camisas toda a semana diante dos alunos… Uma decisão tão pequena e boba, tão fútil, salvou-me de um colapso.
Começou-se assim um processo de corporificação em que até minha poesia tornou-se mais somática. Sinto coisas hoje com a caixa toráxica. Penso em metáforas sobre as batatas das pernas. O bem-estar físico e a presença simples estão em mim no sentido mais material. Esta é a principal residência em que encontrei felicidade durante fases terríveis. O hiperfoco e a disciplina obssessiva, traços meus em tempos de crise, voltados à urgência de não colapsar. Pela primeira vez, esse hiperfoco focado particularmente em mim. O locus da urgência sendo, pela primeira vez, eu mesmo. Porque nunca antes o risco de meu colapso esteve tão presente.
Nunca antes eu estive diante de uma situação de tamanha escassez, em que eu não tinha mais de onde tirar. Sem ter como cortar na própria carne para os outros. Não sobrava mais o que cortar. Dos recursos finitos, das rotinas assumidas religiosamente, deu para sustentar o peso do caos psíquico.
Caminhadas diárias de alguns quilômetros, o sol, o bairro, o retorno aos exercícios físicos na academia. A escrita, como um exercício mais disciplinado também.
Era com essas poucas coisas que eu já estava me mantendo quando as crises começaram a escalonar.
Era frágil (e reitero, precário), mas era o que tinha.
E daí minha avó entrou em um estado gravíssimo de saúde e, poucos meses depois, morreu.
Há um ano, ela ligou para me dar parabéns quando fiz aniversário. Foi uma ligação de poucos minutos. Ela nunca mais vai me dar feliz aniversário de novo. Os anos vão passando e vão somando-se os vazios, os silêncios.
Envelhecer é colecionar silêncios e ausências onde antes existiam palavras e pessoas.
Não tenho como colocar direito a ênfase do quanto a doença e a morte de minha avó me destruíram. No meu cenário mais pessimista, eu não imaginava que fosse me afetar tanto. Minha avó sabia que eu a amava muito e mesmo ela, imagino, não teria como supor o quanto sua partida me faria sofrer.
É difícil comparar sofrimentos, porque já vivi sofrimentos intensos e diversos, mas fico tentado a dizer que foi um dos meus três maiores. E acompanhado dos outros na tríade, confundem-se as posições do que foi pior. Foi um sofrimento diferente de outros que sofri mais jovem, mas isso não quer dizer que foi mais fácil. Na verdade, arrisco a pensar que foi mais difícil.
A solução dessa vez não podia ser a de me desrespeitar. Isso foi inédito. Porque essa morte chegou num momento em que eu já estava há meses num estado de exaustão e limite, eu não tive como lidar da maneira como normalmente lido (ignorando-me, desrespeitando-me, apagando-me).
Eu sobrevivi a algo que não imaginava que seria capaz de sobreviver. E tive que fazer isso de um novo jeito.
Quando mais novo, especialmente nas épocas em que minhas circunstâncias e sofrimentos eram muito ruins, eu tirava algum prazer orgulhoso prepotente pelo menos nisso. Num triunfalismo de sobrevivência. Hoje, ter sobrevivido me causa assombro, misturado com alívio. Como consegui? Por quê? E ufa, ainda tenho o jeito. Se o céu se romper sobre mim de novo, eu acho que consigo pelo menos tentar.
Sinto que foi por pouco.
Mais do que em qualquer outra época ou momento da minha vida, mais do que diante de qualquer outra das crises que vivi (e foram muitas), sinto que quase não consegui dessa vez. Quase mesmo. Tivessem alguns detalhes mínimos sido diferentes, eu não teria dado conta.
Não tivesse estruturado um certo papel para a leitura e a escrita nos anos anteriores, teria sucumbido. A escrita foi parte do que me fez sobreviver e, mais especificamente, foi uma modalidade de escrita que passei anos desenvolvendo e na qual só alcancei maturidade logo antes da tempestade começar. E se eu não tivesse passado os últimos anos chegando até esse ponto? Teria colapsado.
Passei anos tendo questões com o trabalho. Trabalhar muito (e sofrer com isso) para fazer um montão de dinheiro? Flertei com burnouts em várias ocasiões, inclusive porque nas crises anteriores eu dobrava a aposta trabalhando mais para tentar resolver aspectos financeiros do caos (de novo, cortanto na própria carne para tentar resolver tudo). Ficar nessa empresa, ou naquela? E fico assombrado ao pensar na sorte que dei por ter resolvido esses dilemas antes da tempestade chegar. Se eu não tivesse investido os últimos anos até chegar nese ponto de conforto profissional (em que trabalho com a liberdade que preciso e com pessoas de quem gosto), se eu não tivesse me estruturado até aqui? Teria colapsado.
Resolver a situação profissional envolveu também a estrutura de alguma rotina de bem-estar ao redor do trabalho. Aproveitar do remoto, da flexibilidade dos horários, para montar rotinas pequenas como tomar café da manhã direito todo dia, sair todos os dias para caminhar com a cachorra, diariamente ler e estudar um tantinho. Nessa base de rotina que já vinha montando, ficou mais fácil adicionar a academia como um complemento. Se eu não tivesse estruturado essa rotina toda? Teria colapsado.
Voltei à terapia quando minha avó morreu. Mandei um áudio pedindo para marcar um horário com meu psicólogo logo na saída do velório. Se eu não tivesse estudado e me familiarizado tanto com essa ferramenta de auxílio, se eu não tivesse essa prática terapêutica já estabelecida como algo que me esforcei para fazer em diferentes fases durante mais de uma década? Teria colapsado.
A tecnologia mais barata e eficiente que me salvou foi a dos cuidados comuns e das pequenas rotinas. Dos rituais diários. De fazer café para mim e minha esposa logo ao acordar. Do bem-estar ao caminhar com a cachorra no fim da tarde, depois de limpar a pauta de entregar do trabalho do dia. O bem-estar de sair suado da academia à noite e olhar as luzes da cidade.
Nessa última semana aos trinta anos, sonhei pela primeira vez com minha avó. Estávamos sentados juntos numa sala branca e eu me lamentava, reclamando preguiçoso das burocracias envolvidas na morte dela. Ela ria, dizia que isso não era mais problema dela e que eram coisas que ficavam pra mim, ainda vivo, resolver.
Nos últimos dias aos trinta anos, carnaval e festividades. Fui fantasiado de vaca e todo sujo de glíter para passar calor em bloquinhos. Fui feliz.
Pensei, e sorri do pensamento, que minha avó ficaria feliz por saber que para mim ela importava tanto, mas tanto, que eu quase quebrei completamente de sofrimento com a partida dela. Que a morte dela teve esse efeito indireto de desestruturar toda minha vida, toda minha pecepção a meu próprio respeito, todos os meus planos, comportamentos. Uma versão minha morreu junto com ela. Tudo que eu tinha sido na minha vida até então estava morto.
A carne-viva da crise, a impossibilidade de cortar mais fundo na própria carne para resolver, ter chegado ao osso dos meus limites. Isso me obrigou a fazer algo novo.
Pensei também que minha avó ficaria mais feliz ainda, e aliviada inclusive, de saber não só que sofri tanto, mas que não quebrei. Que sobrevivi. Que estou novamente tendo momentos felizes. Que me diverti no carnaval. Que sigo estudando e escrevendo. Que estou caminhando com a Sunna, minha cachorrinha. Que emagreci quinze quilos desde meu aniversário passado. Que agora sinto prazer ao movimentar meu corpo. Que tenho tomado sol. Que tenho chorado feliz ouvindo boas músicas. Que tenho cuidado dos meus dentes. Que sorrio ao lembrar dela.
O que aconteceu comigo neste ano foi intenso, profundo e irreversível. Foi uma das mudanças mais drásticas que já vivi na vida.
Não faço a menor ideia de para onde a vida vai me encaminhar daqui em diante. Simplesmente não sei. Talvez o mundo dobre a aposta e eu tenha uma nova idade tão calamitosa quanto foi a última. Se for o caso, talvez eu sobreviva de novo, talvez eu quebre de vez. O que sei é que, independente do resultado, tentarei com unhas e dentes. Mais agora do que nunca antes eu entendo o quão vívida, profunda e indomável é a vontade de viver que me guia. Foi ela que direcionou todos os meus esforços durante esse ano pra não colapsar.
Eu só sobrevivi com muito, muito esforço e vontade. É uma vontade enterrada no fundo de mim que mesmo eu não entendo muito bem como pode resistir a tanto. Quando penso racionalmente, percebo que eu já deveria ter quebrado. Várias vezes, desde criança, desde adolescente, desde jovem adulto. E nessa de agora, já mais velho e exausto, especialmente.
Talvez a idade nova seja mais tranquila (e espero que seja o caso). Se assim for, vou seguir construindo em cima do fundamento que tive que cavucar das ruínas. Nunca antes estive tão ciente dos meus limites e, em paralelo a isso, de como posso e devo bancar meus desejos.
Eu quero, antes de qualquer outra coisa, viver do meu jeito. Ser feliz do meu jeito. E sem prestar satisfações a quem quer que seja que minha maneira de viver e ser feliz incomode.
Nunca antes estive tão consciente dos meus riscos de autodestruição (da tentação de me apagar, de me silenciar, de me autossabotar, e uma pulsão de morte por trás disso tudo). E também nunca estive tão ciente de que só sigo aqui apesar disso tudo porque contenho também (misteriosamente, milagrosamente) uma pulsão de vida que é, no mínimo, tão forte quanto.
Estou vivo.
Sinto nas entranhas a vibração pulsante de viver. Sinto o sangue quente nas veias dos meus braços. Sinto o ar descendo até os pulmões.
Meu aniversário acontece dessa vez num sábado. Ontem à tarde, sexta-feira, saí com a cachorra para caminhar. Estava sol, céu bonito e azul. Voltei, trabalhei mais um pouco e limpei minha pauta de demandas. Daí, fui para a academia. Fiquei ouvindo uma rádio de música pop (estou, e acho isso bastante irônico, ouvindo muito pop; a música de onde que mais ouvi era Folded, da Kehlani). Terminei meu treino, voltei para casa (o mesmo prazer de sempre pela endorfina ao sair da academia para a noite da cidade enquanto descia a rua até nosso prédio). Dei janta à cachorra, conversei rapidinho com minha esposa que assistia qualquer coisa na televisão. Tomei um banho e li dois contos do livro que estamos lendo para um clube do livro. Dormi.
Acordei cedo hoje, lavei a louça, preparei café da manhã pra mim, para a Jaque e para a Sunna. Depois, sentei para escrever. Terminado isso, vou para a tarde de sábado aproveitar meu fim de semana. Temos compromissos sociais hoje. Também vamos ao parque levar a cachorra para brincar. À academia, se der tempo. O céu está nublado. Espero que não chova.
O silêncio permite projeção. Diante do silêncio dos meus mortos, projeto que eles sorririam. Sorrio dessa ilusão. Sou ateu demais para ser uma imagem religiosa. Mas é algo que entendo como poético. Minha espiritualidade é a poesia.
Hoje sei mais do que sabia antes sobre quem sou, sobre o que me sustenta e sobre o que pode me quebrar. Sei e vivo mais a carne-viva da dor e da alegria. A raiz viva de ambas é a base de tudo em mim. Minha alma quer cantar, gritar, chorar e gargalhar, ficar quieta e escrever poesia.
Como nunca antes, tenho agora atos convictos, não porque estou assegurado que são certeiros (abençoada a Incerteza!), mas porque assegurado e convicto de que são os atos incertos que quero cometer. Nunca mais vou cortar na minha carne por nada, nem ninguém. Não só porque não posso (de mim só sobrou o osso), mas porque não quero. Não quero mais me apagar para resolver crises. Mesmo se quisesse, tentar fazer isso me arruinaria. Não quero me arruinar.
Quero viver.
Vejamos para onde este querer viver me encaminha daqui em diante.

